Natal onde se espera algo que não vai vir, porque ele é um dia como outro qualquer, a não ser pelo fato de ser um dia onde se apregoa a lição de moral mais grosseira do mundo: amar o próximo, e que foi o Cara que escreveu, ditou ou falou.
O Natal dos sonhos, o sonho quebrado, não concluído, porque descobrimos que Papai-Noel não existe. Ou ainda o medo dele existir e não ser como todo mundo diz. O mesmo medo que temos de todas as decisões que tomamos na vida. É o medo que vi nos olhos do pequeno Miguel, ao ser questionado a ir atrás dos rastros que o "Noel" deixou pela sala, passando pela cozinha até os fundos, onde fugira com seu trenó. Ele preferiu deixar o velho ir embora.
Seja por medo dele não ser bom o suficiente ou de comprovar que os seus parentes - que deveriam lhe dar amor e verdade, no mesmo tom e na mesma medida - mentiram e se divertiam, rindo, regozijando-se em um peru morto e assado, o nascimento de um menino numa manjedoura, que por mais que não soubesse de sua história, a estava desde novo aprendendo que ali se festejava a vinda dele, que seria decorrida de uma série de sofrimentos. E regozijavam sobre o medo do garoto, sobre a enganação. Esse, esse daí é o verdadeiro sentido do Natal: enganar tão bem o mundo e a nós mesmos. Todos, enganados, celebrando.


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